28 de out de 2010

Escrever é assim: um elogio e uma justificativa

Ontem li, numa entrevista do Globo, alguns pensamentos da Adélia Prado sobre o processo da escrita. Vejam que perfeito:

“Adélia não é o tipo de escritora que tem um método, uma rotina. não consegue trabalhar todos os dias. Só escreve quando ‘a coisa vem’. Quando fala da sua escrita, ela invariavelmente usa o verbo ‘vir’. (...)

– Acho que ninguém explica a forma como se escreve poesia, né? Acho que há um impulso inicial, interno, sobre algo que se quer dizer, e quer se dizer em forma de poesia. A partir daí você tenta escrever. Nem sempre você é feliz. Às vezes, o poema não se resolve. Eu não sei falar sobre isso, não – reclama – Gosto mais de escrever poesia do que prosa. E digo que o objetivo da prosa é a experiência poética. Se não, eu acho, a prosa não sabe a que veio. Toda arte tem uma finalidade só: tocar aquele nervo. Na prosa, você não narra porque narra. Alguma coisa tem que se mover.”


Pois é, escrever tem que passar pelo “tocar aquele nervo”. Não faz sentido, não tem graça, se não for assim.

E Adélia (que alma sensível!) “toca aquele nervo”. Brilhantemente. Alem de possuir a mágica de conseguir expressar o que eu sinto e não consigo colocar em palavras. Traduz em tinta o banal (mas não menos relevante) do cotidiano.

E assim se deu comigo, mais uma vez. Quando a li encontrei as palavras (que apenas meu coração balbuciava) para justificar (em grande estilo) minha inconstância no blog. Se a “coisa não vem”, não pulsa, não me toca de maneira diferente, não merece estar aqui.

Para arrematar uma poesia, que há anos atrás, me introduziu ao mundo da Adélia (obrigada Elivânia!). E que justamente fala da magia da escrita:

Antes do nome

Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o “de”, o “aliás”,
o “o”, o “porém” e o “que”, esta incompreensível
muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infreqüentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.

P.S.: Meu aniversário é só em março. Mas já tá valendo minha indicação de um livro da Adélia para meu presente...rs.

2 comentários:

flavinhavasconcelos_ disse...

Gabi (Posso?), te reencontrei, e isso foi muito bom pra mim. Eu lia 'voce' no outro blog, o antigo. Hoje, por ele, visitei este aqui. Está lindo! Enfim, mas o que me traz aqui nos comentários, é seu poema "Janela sem moça". Queria saber se posso usá-lo em perfil, aqui na internet. Aguardo resposta.

Rodrigo disse...

Adélia Prado: simplesmente extraordinária! Nossa grande teopoeta!